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Resenha da palestra "O tempo da criança pequena na Educação Infantil"
do dia 13/03.

Palestrante: Marilva Silva Gonçalves Barsan


HORÁRIO BIOLÓGICO PODE DEFINIR DESEMPENHO ESCOLAR

Na palestra "O Tempo da Criança Pequena na Educação Infantil", diretora do Sinesp discute a adequação da programação escolar ao cronograma de aprendizado da criança.

A criança é um ser que precisa ser desvendado. Partindo dessa premissa, a coordenadora pedagógica da Rede Municipal de Ensino de São Paulo e diretora de eventos educacionais do Sindicato dos Especialistas de Educação do Ensino Publico do Municial de São Paulo, Marilva Barsan, deu inicio à sua palestra "O Tempo da Criança Pequena na Educação Infantil", no dia 13 de marco, no espaço Fala, Professor!, durante a 19ª Bienal do Livro de São Paulo.

"As crianças mudam sempre. Hoje elas são umas, amanhã são outras", pois o processo de desenvolvimento e aprendizagem é muito rápido, diz ela, ressaltando a individualidade de cada uma. Segundo ela, a educação infantil deve se preocupar em cuidar com qualidade de crianças pequenas, respeitando-as e educando-as para o exercício da cidadania e da autonomia. "Cada uma tem sua forma de pensar, sua forma de agir e temos de buscar isso nela, visando sua autonomia."

Barsan destaca a compreensão do tempo da criança como fator essencial para sua educação. "A criança tem seu tempo biológico, seu tempo de vida, sua história no tempo e o tempo que ela passa na escola", diz.

A pedagoga traça um apanhado do desenvolvimento da criança na História. Na Antiguidade, a criança não tinha função social, não era valorizada e foram poucos os que trataram da infância e começaram a perceber a criança como um ser social: Platão defendia a educação por meio dos jogos; Aristóteles atribuiu ao período pré-escolar um papel decisivo na formação da personalidade; Comenius atribuia aos pais uma tarefa educativa de muita responsabilidade e, segundo Rousseau, a criança nascia boa, mas a sociedade a corrompia.

No século 19, Froebel criou o primeiro jardim da infância na Alemanha, o Kindergarten com caráter pedagógico. Outras mudanças aconteceram a partir do século 20. Interessante notar que foram os homens que começaram a se preocupar com a educação da criança pequena. Maria Montessori foi uma das primeiras mulheres a olhar a criança como um ser em desenvolvimento, fundamentada numa concepção biológica de crescimento e desenvolvimento.

Nas primeiras décadas do século passado, a educação infantil começou a ser valorizada. Em 1935, foram criados os primeiros parques infantis, sem sala de aula, poucos espaços cobertos onde as crianças tinham contato com as árvores, água e areia.

Com o passar do tempo, novos conceitos foram pensados, com enfoques cognitivos, construtivistas e outros discutidos até hoje. Os estudos avançaram, a Constituição de 1988 apresentou a criança como sujeito de direitos; a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Plano Nacional de Educação, colaboraram para um novo enfoque sobre Educação Infantil.

Apesar dos avanços, ainda há um abismo entre a teoria e a prática. "Queremos um governo que reconheça a educação infantil como um período da vida fundamental para a constituição do ser humano; que reconheça o nosso valor como profissionais e disponibilize recursos para essa educação. Queremos uma educação infantil não escolarizada, dentro de sala de aula, mas em escolas com espaços adequados", defendeu Marilva Barsan.

Segundo ela, a educação infantil para a criança pequena é essencial para a formação do cidadão. "A criança pequena está numa fase predominantemente afetiva. Quando ela nasce, precisa do toque, do carinho, do aconchego. Dos três aos seis anos, ela precisa se sentir aceita, se sentir reconhecida", disse.

Nesse contexto, a formação do professor e uma instituição educativa adequada, seja ela creche ou pré-escola, é fundamental. "Não se pode exigir que uma criança pequena fique sentada numa cadeira durante horas", disse. "A criança precisa de interações e intervenções pedagógicas, dentro de um contexto lúdico, e não aula com conteúdo, com hora marcada."

Barsan destacou também o ritmo biológico da criança. A cada momento do dia temos variação comportamental. A criança que fica na escola o dia todo, não apresenta o mesmo rendimento durante todos os períodos. "Sabemos o que ensinar e como ensinar, mas precisamos saber quando ensinar", disse, destacando as contribuições da "cronobiologia", que estuda os ritmos biológicos do ser humano.

"Precisamos pensar na distribuição temporal das atividades, saber qual é o momento propício para propor atividades que exijam mais raciocínio, de acordo com o ritmo biológico das crianças”, disse a educadora. Segundo ela, em geral, a criança apresenta um aumento gradual de rendimento pela manhã, uma queda após o meio-dia, quando muitas crianças sentem necessidade de repouso. O período das 11 às 15 horas é o período mais inadequado para se propor atividades que exijam raciocínio e concentração."

“Talvez muitos dos problemas de indisciplina, podem estar relacionados a uma inadequação do tempo da escola com o tempo das crianças, assim como as dificuldades de ensino e de aprendizagem.”, disse Marilva Barsan. "A escola tem de pensar nessa questão. Temos de buscar alternativas para os horários das escolas."

Para quem pensa, discute, planeja e executa tarefas pedagógicas é importante saber o que está acontecendo no organismo e no comportamento das crianças durante o período em que elas ficam na escola.

Barsan encerrou a palestra lançando um desafio para a platéia de professores: "Precisamos ampliar nossos conceitos sobre uma nova rotina escolar, de forma que a organização do tempo e do espaço seja inserida na proposta pedagógica, respeitando as características biológicas da criança."